Mediação força entendimento na Líbia

Fonte: Jornal de Angola – http://goo.gl/s2GYK1

Por Roger Godwin

Depois de prolongadas rondas negociais realizadas na cidade de Tunis, o enviado especial das Nações Unidas para a Líbia, Martin Klober, considerou estarem reunidas “bases muito positivas” para um possível entendimento entre as facções desavindas.

Mas, a verdade é que esta proposta de entendimento apresentada pela mediação liderada pelas Nações Unidos, é mais fruto de uma imposição do que o resultado de negociações envolvendo as partes líbias.

No fundamental, a proposta visa atingir o objectivo de serem realizadas eleições no país dentro de dois anos, havendo, para isso, a necessidade dos dois governos e parlamentos se fundirem num só para a necessária preparação conjunta do pleito.

Esta “receita”, anteriormente aplicada a outros conflitos internos envolvendo duas partes rivais, para poder funcionar precisa que os beligerantes dialoguem numa base de sólida confiança. Essa confiança, para ser sólida, precisa de ser construída com actos e não apenas com meras palavras de circunstância, sobretudo se forem proferidas debaixo de um clima de forte pressão internacional, como parece ser o caso.

Tem que se reconhecer que confiança é aquilo que os líbios perderam, mesmo entre si, desde a morte de Muammar Kadhafi, em Outubro de 2011, vítima de uma conspiração internacional com o objectivo de subverter os efeitos dos avanços que o país então estava a registar.

Desde essa altura, a Líbia entrou num dramático processo de declínio político, económico e social que viria a culminar com a fuga apressada das forças internacionais que se coligaram para subverter o país e se agravaram com a instauração de dois poderes paralelos, expressos na existência de dois governos e de outros tantos parlamentos, cada um a reivindicar legitimidade de funções  para exercer o poder em toda a extensão do território nacional.

Aproveitando-se da situação de descontrolo em que a Líbia caiu, diversos grupos armados, com alguns terroristas pelo meio, começaram então a entrar no país para criarem bases de apoio ao treinamento de jihadistas que depois são enviados para as suas missões de morte em diferentes outros países em todo o mundo.

Actualmente existe na Líbia um governo sedeado em Trípoli e que integra membros do Congresso Geral Nacional e congrega o que restou de uma aliança de diversos grupos armados, entre os quais alguns radicais islâmicos armados pela comunidade internacional no afã de derrubar Kadhafi.
Estes elementos ocuparam a capital do país em Agosto de 2014 e obrigaram o governo que estava em funções e que continua a ser reconhecido pela comunidade internacional a fugir para a cidade de Tobruk, no oeste do país, onde controla algumas das zonas mais ricas na produção de petróleo.

Será, supostamente, para dar corpo ao projecto de criação de um governo unitário que propõe para os próximos dois anos a realização de eleições no país, que os beligerantes e a mediação se deverão sentar frente a frente na cidade de Roma a partir da próxima semana.

À primeira vista esta possibilidade de entendimento parece ser muito mais simpática para os homens do Congresso Geral Nacional, que controlam a cidade capital do país mas não são internacionalmente reconhecidos sendo, aliás, acusados de estarem a facilitar a movimentação interna de homens do auto-denominado “Estado Islâmico”, do que para os que estão em Trípoli. Só o facto das Nações Unidas lhes abrirem as portas para a negociação parece ser o reconhecimento implícito da sua importância para a busca de uma solução negociada, numa reinvenção da tese de que “o crime, afinal, compensa”.

Aliás, um dos seus principais responsáveis e a quem foi atribuído, pelos seus companheiros, o posto de “primeiro-ministro”, Awad Mohammed Abdul-Sadiq, disse mesmo já estar-se perante “um momento histórico” na vida do país”.

E, na verdade, trata-se de um “momento histórico” uma vez que representa o reconhecimento, pela primeira vez feito pela comunidade internacional, de que terroristas e salteadores têm o mesmo direito a negociar do que pessoas que, a determinada altura do processo interno, mereceram a confiança dos líbios na única vez que estes foram chamados a pronunciar-se desde o assassinato de Muammar Kadhafi.

Este reconhecimento, por sua vez, representa também um assumir, não implícito, de responsabilidades por tudo aquilo que de negativo a comunidade internacional fez na Líbia ao longo dos últimos quatro anos. Embora não se saibam as cartas que a mediação terá na manga, a verdade é que este acordo se afigura muito difícil de concretizar uma vez que representa quase que um prémio para os que colocaram o país numa situação de saque generalizado e um castigo para quem ousou conquistar a confiança de uma parte significativa do povo.

Parece ser  evidente que o governo que está em Tobruk não irá aceitar compartilhar o poder com membros das milícias que os obrigaram a fugir de Trípoli e de quem sofreram todo o tipo de sevícias e humilhações, sem que a comunidade internacional tenha então mexido um dedo para o defender.
Sem nada ter a perder e reconfortado pelo reconhecimento político que as próprias Nações Unidas agora lhe está a fazer, o governo que está em Trípoli poderá usar as negociações que vão decorrer em Roma para propagandear uma tolerância que está muito longe de ser a sua imagem de marca.
Por isso, a proposta que vai ser negociada em Roma, se até lá não fracassar ou for melhorada, está condenada ao fracasso, apenas servindo para tranquilizar os espíritos inquietos da comunidade internacional eventualmente atormentados pelo fantasma de Muammar Kadhafi.

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